Comunidade de Onambabi rompe o silêncio e leva à rádio os desafios vividos no dia a dia

No município de Cuanhama, província do Cunene, vozes antes esquecidas começaram finalmente a ser ouvidas. Durante mais uma edição do programa “Caminhos para Resiliência”, uma iniciativa da ALDA – Associação Luterana para o Desenvolvimento de Angola, transmitido pela Rádio Eclésia, membros da comunidade de Onambabi emocionaram os ouvintes ao relatarem, na primeira pessoa, as dificuldades que enfrentam diariamente para sobreviver.

O programa, que teve como tema "A realidade das comunidades (desafios e soluções), reuniu representantes dos CDAs Comités de Desenvolvimento da Aldeia da comunidade de Onambabi, um ADC e o coordenador de projectos da ALDA. Mais do que uma simples conversa radiofónica, o momento transformou-se numa poderosa plataforma de denúncia, reflexão e esperança.

Entre os participantes estiveram Seculo Florentino Siwonwenyo, Mamã Priscila Kosiyonulo e Mamã Ambeleleni, membros activos do CDA de Onambabi, que falaram abertamente sobre o abandono que a comunidade enfrenta há anos. Segundo os membros, a aldeia não possui estruturas básicas de apoio social, como escolas, hospitais ou vias adequadas de acesso.

Um dos problemas mais preocupantes apresentados durante o programa foi a situação do canal que atravessa a comunidade. Os membros denunciaram que empresas chinesas têm retirado água do canal e despejado em áreas próximas da Chana, provocando acumulação excessiva de água e dificultando a circulação das famílias.

“Não conseguimos sair da aldeia para chegar ao hospital ou ao centro da cidade. Quando chove ou a água aumenta, ficamos completamente isolados”, lamentaram os representantes comunitários.

Os membros afirmaram ainda que já apresentaram diversas reclamações às administrações municipais, mas até agora continuam sem respostas concretas. Apesar de estarem localizados a poucos minutos da cidade de Ondjiva, sentem-se esquecidos pelas autoridades.

Num dos momentos mais marcantes do programa, o coordenador de projectos da ALDA reforçou a importância de serem os próprios membros da comunidade a falarem sobre os seus problemas.

“Nem sempre a ALDA deve falar pelas comunidades. É importante que os próprios cidadãos contem as suas experiências, apresentem as suas dificuldades e mostrem aquilo que vivem diariamente”, afirmou.

A intervenção destacou o papel dos CDAs como estruturas fundamentais para a organização comunitária, promoção da participação cidadã e aproximação entre as comunidades e as instituições públicas. Segundo o coordenador, os CDAs não existem para benefício individual, mas sim para defender o bem comum e encontrar soluções colectivas para os desafios locais.

A participação dos membros de Onambabi demonstrou exactamente isso: comunidades organizadas conseguem dar voz às suas preocupações, fortalecer a cidadania e exigir os seus direitos de forma mais activa e consciente.

Além das dificuldades, o programa também evidenciou os impactos positivos das acções desenvolvidas pela ALDA na comunidade. Os membros agradeceram publicamente o apoio prestado através das Escolas de Campo de Agricultores (ECAs), onde receberam sementes de milho, massango, ginguba e feijão macunde para impulsionar a agricultura familiar.

Segundo os beneficiários, as sementes já começam a produzir resultados animadores e trazem esperança para uma colheita abundante nos próximos meses. “Com estas sementes conseguimos produzir mais. Estamos felizes porque agora temos mais esperança de melhorar a alimentação das nossas famílias”, disseram os membros da comunidade.

O testemunho reforça como iniciativas comunitárias voltadas para agricultura familiar, desenvolvimento local e fortalecimento organizacional podem transformar vidas, sobretudo em comunidades vulneráveis.

Ao longo do programa, ficou evidente que o impacto da ALDA vai além da distribuição de sementes ou realização de actividades comunitárias. A organização tem contribuído para fortalecer a voz das populações, incentivar a participação comunitária e criar espaços onde os cidadãos podem denunciar problemas, propor soluções e lutar pelos seus direitos.

O programa “Caminhos para Resiliência” mostrou que quando as comunidades têm oportunidade de falar, tornam-se protagonistas da sua própria transformação. E mais do que relatar dificuldades, os membros de Onambabi deixaram uma mensagem clara: as comunidades querem ser ouvidas, valorizadas e incluídas nas decisões que afectam as suas vidas.

Num contexto em que muitas aldeias continuam a enfrentar enormes desafios sociais, económicos e estruturais, iniciativas como as promovidas pela ALDA representam não apenas apoio comunitário, mas também esperança, dignidade e fortalecimento da cidadania.

Juntos podemos salvar vidas e transformar comunidades

Associação Luterana para o Desenvolvimento de Angola.

Por: Sónia Npaka Nfita

Luzia da Purificação Palaia

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